Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

Da Revolução

No post sobre o Laicismo, referi que «uma das características mais importantes no pensamento revolucionário é a sua extraordinária capacidade metamórfica». Podendo este afigurar-se de socialista a fascista, passando por liberal.

O tema e o debate dão pano para mangas, como referiu o caríssimo Menestrel na caixa de comentários. Porém podemos identificar claramente aquilo que na História se define como Revolução.

Numa palavra, Revolução significa Subversão. Ou seja, revolucionar é destruir, adulterar, corromper, perverter e virar de cabeça para baixo, toda uma sociedade.

Porém, quando falo em Revolução não me refiro a qualquer sublevação social e política histórica de carácter autonomista ou que simplesmente ambicione o derrube de um governo injusto.

Antes pelo contrário, Revolução define-se como qualquer doutrina ou projecto de expressão política, que se proponha (qual sacrossanto) a destruir de forma total e absoluta a velha sociedade (vertical) para edificar a partir do nada, "erguer das cinzas", a nova sociedade (horizontal). Projecto que aliás, passa sempre, não por autonomia ou justiça, mas pela imposição da ditadura de uma determinada classe sobre todas as outras – sejam proletários ou burgueses.

Além isso, os agentes e ideólogos da Revolução funcionam eles próprios como uma espécie de agentes "moralizadores" sem Moral, que surgem para vingar e punir todo o Passado e Presente – que mais não é do que a representação da velha sociedade – na edificação do Futuro, na Utopia.

Assim, os agentes revolucionários são também o "tribunal" da História, porque neles está "consagrada" toda a justiça futura. Na medida em que eles são os presumíveis detentores do futuro hipotético, que por sua vez será sempre hipotético, por ser sempre futuro. Daí a constante necessidade de alimentar a esperança na Utopia, vulgo discurso k7.


Moral da História: a Revolução é uma psicose social e o Revolucionário é um sociopata. Resta-nos por isso, lutar contra a demência.

4 comentários:

Orlando disse...

"Revolução define-se como qualquer doutrina ou projecto de expressão política, que se proponha (qual sacrossanto) a destruir de forma total e absoluta a velha sociedade (vertical) para edificar a partir do nada, "erguer das cinzas", a nova sociedade (horizontal"

Na História europeia, a revolução conforme definido surgiu a partir do Iluminismo. Antes do Iluminismo, a destruição de forma total e absoluta só tinha acontecido com a invasão dos bárbaros que originou a queda de Roma. A política de "terra queimada" é essencialmente fruto do iluminismo que sofreu e sofre grande influência da maçonaria.

Olavo de carvalho escreveu um excelente artigo Jornal de Comércio (Brasil) acerca da revolução,com o título "Psicose Iluminista":

«Um dos traços constitutivos da mentalidade revolucionária é a compulsão irresistível de tomar um futuro hipotético – supostamente
desejável – como premissa categórica para a explicação do presente e do passado. Nessa perspectiva, a história humana é vista como o trajecto linear – embora entrecortado de abomináveis resistências – em direcção ao advento de um estado de coisas no qual o curso total dos acontecimentos encontrará sua consumação e sua razão de ser.
Que haja nisso uma inversão psicótica da ordem das causas é algo que nem de longe rebrilha no horizonte da (in)consciência
revolucionária, tão embevecida na contemplação estática das suas próprias lindezas que até a claridade máxima do óbvio se torna a seus olhos treva densa e impenetrável.

Mais cómica ainda, ou tragicómica, torna-se essa inversão quando, à maneira iluminista, o futuro esperado é descrito como o triunfo
da racionalidade científica sobre o obscurantismo das crenças bárbaras. Pois a concepção futurocêntrica da História, virando de cabeça para baixo a hierarquia do necessário e do contingente já traz em seu bojo a destruição completa da lógica, do método científico e de toda possibilidade de compreensão racional da realidade. Não foi à toa que Paul Ilie, no seu magistral estudo The Age of Minerva (2 vols., University of Pennsylvania Press, 1995), caracterizou o estilo mental do Século das Luzes como "razão antiracional".
Não espanta que, mais de 200 anos depois de ter desencadeado a maior e mais duradoura epidemia de revoluções, tiranias e genocídios já registrada desde o início dos tempos, a vaidade iluminista ainda continue a se pavonear de campeã da liberdade e dos direitos humanos, como se fosse lícito a uma filosofia reconhecer-se a si mesma tão somente pelos ideais declarados na sua propaganda e não pelo desenrolar inevitável e previsibilíssimo da realização efectiva das suas premissas.
O ideal de uma sociedade regida pela "razão científica" é o cerne mesmo da proposta iluminista, e a ele deve-se o nascimento das
duas tiranias mais sangrentas que o mundo já conheceu, uma fundada na biologia evolucionária, outra na ciência marxista da história
e da economia. O mais recente e meticuloso estudo comparativo desses dois regimes, The Dictators: Hitler's Germany, Stalin's Russia,
de Richard Overy (New York, W. W. Norton, 2004, especialmente pp. 637 ss.), destaca como primeira e essencial similitude entre eles
o "culto da ciência". Auschwitz e o Gulag são a utopia iluminista materializada.»

Gazeta da Restauração disse...

Bom texto. Sociedade vertical versus sociedade horizontal. É isso mesmo. Curioso é reparar que, quanto mais horizontal for, mais nega a necessidade de verticalidade, mas acaba por reconhece-la na criação de mitos e cultos personalizados, sem os quais não sobrevive...

Demokrata disse...

Caro Orlando,

Sem dúvida que o Iluminismo é a agulha que rebenta o balão – balão aliás que já vinha a ser enchido desde o antropocentrismo renascentista. Porém, não creio que por detrás das invasões barbaras estivesse uma ideologia revolucionária, mas antes um puro e simples desejo de conquista – corrija-me se estiver enganado. Até porque os povos bárbaros conservaram a verticalidade da velha sociedade, de Moral Cristã. Pois, tal como as sublevações autonomistas não se inserem dentro de uma mentalidade revolucionária, também uma conquista ou reconquista histórica não deve ser inserida. E daqui sigo desde a Reconquista Cristã até à edificação do Império Português.

Em relação a Olavo de Carvalho, também é uma das minhas grandes referências.

Cumprimentos e volte sempre!

Demokrata disse...

Caro Gazeta,

E no entanto, tanto que ficou por dizer...

Um abraço.